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Sergio Zlotnic

Do outro lado do oceano


* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

1- Elisa Band é um dos grandes nomes da performatividade no teatro. Além de talentosa atriz, possuidora de espantoso instinto de palco, é, também, encenadora poderosa, capaz de impactar plateias.

 

Sua mais recente pesquisa põe mais de 60 atores e atrizes em cena, num inquietante espetáculo.

 

No passado - ao lado de outros trabalhos seus, que reúnem atores profissionais -, por décadas, juntamente com Cássio Diniz Santiago e outros colaboradores, Elisa Band experimentou articular psicose e teatro, colocando pacientes psiquiátricos no palco. Os resultados se descolaram da psiquiatria, desembocando em cenas teatrais que afirmavam a teatralidade dos atores, independentemente de sua condição. Explico.

 

Os diretores não reduziam o exercício a uma mera atividade destinada a distrair ou entreter pessoas “difíceis”, socialmente excluídas. Não se tratavam de jogos para animá-los, encorajá-los, fazer com que superassem obstáculos, ou percebessem o mundo com mais objetividade. Não havia ingenuidade ou pedagogia. O projeto desejava - e realizava - Teatro.

 

Nas experimentações, a psicose do elenco não era recusada; entretanto, os pacientes psiquiátricos se entregavam a um jogo teatral maiúsculo que, em qualidade, nada ficava a dever aos espetáculos de outras companhias das artes do palco, reconhecidamente valorizadas.

 

2- Exemplo de um fragmento de cena.


Houve uma apresentação em que, para evitar estigmatizações, a pedido da trupe, a mídia omitiu o fato de que o elenco era composto por pessoas portadoras de distúrbios psiquiátricos. No meio da peça, uma das pacientes, bastante comprometida psiquicamente, atravessa o palco, com seu andar lento, torto e depauperado. E sincero! Ao final, um espectador procura os diretores para saber: quantos anos de butô essa atriz teria praticado? Teria sido no Japão mesmo que ela se especializou na dança de sombras?

 

3- Em recente palestra na SP Escola de Teatro, Elisa Band conta que para trabalhar com ela há apenas uma condição: é necessário que o ator/atriz saiba fazer e repetir um único gesto. Se, como no caso do butô, tudo que a atriz pode fazer é atravessar o palco, na diagonal, caminhando vagarosa e claudicantemente, esta será a sua participação, ao mesmo tempo, minúscula e enorme.

 

Parêntese. Intrigante pensar a psicose como impossibilidade de repetir, redução drástica do arsenal de redundâncias banais, que submetem os neuróticos às gramáticas sociais.

 

Na ocasião, as investigações de Elisa Band, Cássio Diniz Santiago e colaboradores, sob coordenação de Peter Pál Pelbart, iluminaram a psicose – e, simultaneamente, iluminaram o teatro, fazendo-nos interrogar no que consiste, na essência, a arte de interpretar. Em paralelo, o conceito de representação era mais uma vez posto em xeque.

 

4- Agora, a ONG Ser Em Cena, que se dedica a desenvolver atividades de teatro com pessoas afásicas, numa feliz escolha, convidou Elisa Band a dirigir o espetáculo Do Outro Lado Do Oceano, que estreou no Teatro Frei Caneca, em 28 de novembro próximo passado. E, então, novamente, pode-se conferir o talento da diretora, a qualidade da encenação e a força do coletivo.

 

Aqui também a potência da pesquisa instaura um campo em que a condição dos personagens envolvidos não é nunca negada, porém, desde o início, deixa de importar – convertida em mera circunstância.

 

Elisa Band mistura seus atores afásicos, com outros que não carregam essa insígnia (não-afásicos). Distingui-los no palco é frequentemente impossível.

 

A diretora aproveita o modo particular com que o afásico habita a linguagem, seu repertório, para montar 21 cenas curtas, algumas de rara beleza. A ocupação do palco, o aproveitamento do espaço, distribuem as ações de maneira a criar vinhetas memoráveis, numa viagem imaginária por oceanos prenhes de estranhas criaturas.

 

Cada cena ganha uma legenda escrita, como se estivéssemos assistindo a um filme antigo, cifra, aliás, do estilo da diretora: suas pesquisas sempre promovem choques entre estéticas heterogêneas, emblemas de múltiplas épocas, que as antenas de Band captam.

 

A diretora conta com uma equipe competente – e há evidente criação coletiva; entretanto, também é evidente que a Elisa Band está ali visceralmente envolvida em cada detalhe: trilha sonora, figurino, direção de atores, dramaturgia... Hercúlea tarefa, a de dar conta dessa pluralidade de variáveis, regendo 65 atores no palco!

 

De nossa poltrona de espectadores, assistimos a um caleidoscópio de cores, luzes e ações. Muitas vezes, são apenas gemidos e grunhidos e urros e mímicas e gestos, usados para criar conversas sem palavras que compõem uma língua fictícia, inexistente do dicionário oficial – porém cheia de sintaxes e semânticas e lirismos. É produção de linguagem o que se vê ali.

 

5- Nesse jogo, algo notável se dá: os atores deixam de ser afásicos – sem deixar de sê-lo! As afasias se tornam coadjuvantes. Pois a sua língua peculiar – desviante - pousa noutro léxico: o da cena teatral. Ali, suas singularidades e equívocos ganham lugar e legitimidade. Ali, a língua do afásico flutua com toda liberdade.

 

Assim, o trabalho de Elisa não atenua as marcas de cada um de seus atores, mas ao contrário, estratégia genial, ela sublinha e aproveita cada lesão, para fazê-la dizer outra coisa no palco.

 

Desse modo, o espetáculo, involuntariamente, talvez, acaba por destacar as nossas afasias particulares, as de cada um de nós, espectadores, limitados por nossa anatomia, nossas barreiras pessoais, história, cacoetes, sotaques e constrangimentos. Seríamos sete bilhões de afásicos?

 

6- Por não achar que o teatro conserta ninguém, é admirável mais este trabalho de Band. Com seus afásicos/atores, procede a um concerto. Emocionante!

 

7- A peça terminou no dia 15 de dezembro. Queiram os deuses do teatro que ela volte no próximo ano!


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