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Roger Ballen: O fotógrafo à procura de seu próprio tempo

Nascido em Nova York, em 1950, Roger Ballen iniciou sua trajetória como fotógrafo amador registrando a vida de meninos em diferentes culturas à quais teve acesso na série “Meninos”, que pode ser vista na exposição “Roger Ballen: transfigurações, fotografias 1968-2012”. Mas é por meio da profissão de Geólogo, ofício que exerce até hoje, que Ballen encontrou a temática que mais caracteriza sua obra.

 

As viagens que realizou pelo interior da África do Sul, país em que foi morar no ano de 1982, favoreceram seu contato com uma paisagem e uma arquitetura em deterioração — índice do abandono ao qual aquelas comunidades estavam sujeitas. Sua série “Platteland: Images from Rural South Africa” procura dar conta desse aspecto, em um país que, por meio dos meios oficiais, promovia uma realidade completamente diferente e enviesada.

 

Alguns anos depois, a câmera de Ballen aponta para os indivíduos dessas mesmas comunidades lutando para sobreviver em condições precárias. Sua intenção era mostrar a marginalização dos povos daqueles vilarejos como uma característica arquetípica e universal, como um problema do humano em geral. Em entrevista para Chas Bowie ¹ Ballen explica que:

 

      “Em ‘Platteland’, a ideia era tentar fotografar ou documentar um grupo arquetípico de pessoas que vivem na zona rural da África do Sul, confrontados com a revolução, o medo, a alienação, o isolamento e a rejeição. Naquele momento da história da África do Sul vivia-se um período de verdadeira turbulência, então, de certa forma, eu capturei algo que talvez contenha este elemento histórico. A forma como essas pessoas foram fotografadas, na minha concepção, indicava uma metáfora para aquilo que muitas outras pessoas estavam sentindo. Se sentiam inseguros, alienados, e incapazes de lutar de todas as maneiras. Assim, por um lado, essas pessoas revelam o conjunto específico de circunstâncias que devem ter experimentado naquele momento. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que, de alguma forma ou de outra, eram uma metáfora para vários aspectos da condição humana. Então eu acho que as fotografias que se tornaram icônicas em alguns aspectos estão mais relacionadas com a condição humana do que com as circunstâncias particulares da época.”

 

No entanto, a eloquência e precisão de suas imagens mostravam um povo específico vivendo em um tempo específico. Uma África do Sul abandonada pelo poder público que vivia um turbulento ambiente de discussão contra o regime segregacionista do Apartheid. Um país que procurava mostrar sua população branca como unida e forte, o contrário do que as fotos de Ballen revelavam. O trabalho de Ballen irritou setores conservadores e o artista recebeu ameaças de morte e foi preso mais de uma vez:

 

      “Tive muitos problemas com esse livro, por morar na África do Sul. Fui preso e recebi ameaças de morte. Eu não estava pronto para isso no momento. Praticava a fotografia como se fosse um hobby; fazia aquilo porque amava. Eu não estava pronto para a agitação da mídia e toda a raiva que o trabalho despertou. Surpreendeu-me que, de repente, eu estava encarando uma desaprovação opressiva. Fui pego de surpresa.
Nos meios de comunicação, a população Sul-Africana branca era representada como bem sucedida e de aparência forte — ferramenta característica, algo que Hitler tentou apresentar ao resto do mundo. De repente, estas fotografias mostravam o que a população branca, ou, pelo menos, um aspecto dela, de fato era. Tornou-se um grande tema de discussão. Não era o que o resto do mundo pensava sobre a população; contrariava a imagem preconcebida. Acho que foi uma revelação para um monte de gente, não só na África do Sul, mas também fora.”²

 

O desconforto com a leitura política e de recorte histórico específico que sua obra recebia, fez com que o fotógrafo recusasse o trabalho de inclinação documental. De 1995 a 2000 Ballen realiza a série “Outland”, dando início a uma abordagem mais teatralizada da imagem. Ainda há o elemento documental, mas este aparece em constante tensão com a imagem montada. Seu enquadramento continua buscando a população marginalizada da periferia das cidades sul-africanas. Ali os fotografados se tornam personagens de uma trama em que a justaposição de elementos do espaço com os indivíduos registrados, nos revela a violência e o isolamento de sua condição. É curioso que o artista tenha procurado, como estratégia,  universalizar sua temática por meio de uma abordagem mais construtivista e simbólica. Separá-la de uma leitura político e historicamente recortada. Ele explica:

 

“Em ‘Outland’ eu decidi criar imagens que não têm necessariamente a ver com a África do Sul. As imagens foram despojadas de todos os sinais e símbolos que pudesse de alguma forma te levar de volta para a África do Sul. Eu queria que elas tivessem uma sensibilidade universal.”³

 

O que ocorre, contudo é que em “Outland”, o fotógrafo constrói um discurso ainda mais nítido e comprometido com a política e com a história do que aquele que resultava de seus trabalhos documentais. “Outland” é uma série em que a condição humana não é definitivamente lida como um problema geral, mas, sim, e por que não, como um problema específico do povo daquele lugar e naquelas condições determinadas. Talvez por conhecermos no Brasil trabalhos fotográficos em que a lente aponta para territórios e indivíduos em condições  semelhantes, conseguimos marcar a diferença com maior clareza, sobretudo a cultural.

 

Ainda há que se considerar também a trajetória proposta na exposição. Ela nos coloca em contato com os primeiros impulsos do fotógrafo e na medida que avançamos, conhecemos por meio de textos as razões da mudança de perspectiva em seu trabalho. Assim, se o artista se esforça para que sua obra não seja lida de forma “historicizante” e política, este é precisamente o movimento que acabamos por realizar, como a criança a quem se pede que não mexa em uma determinada gaveta.

 

As séries que seguem o trabalho feito em “Outland” (“Shadow chamber”, “Bourding house”, “Asylum of the Birds”) intensificam a aposta construtivista feita pelo artista. Investem em uma espécie de montagem. Não como a montagem cinematográfica, já que essa acontece no decorrer do tempo, mas em uma montagem no interior do plano. Há de um lado uma autonomia em cada elemento da composição, e sua ligação com os demais não se realiza na lógica naturalista. Vemos diversos deslocamentos de objetos em relação às suas funções típicas. O arame, que aparece com certa frequência na obra do fotógrafo, é um elemento que compõe com frequência paisagens de segregação e delimitação de território. Nas suas fotografias, ele aparece pendurado nas paredes exercendo ora uma função puramente estética no quadro, ora propondo situações mais individualizadas de sujeição e opressão, num deslocamento curioso em relação à típica imagem da cerca às quais o arame está funcionalmente associado. Apesar de cada elemento conter em si um discurso próprio, o esquema da composição, ainda que com seu nexo fantástico ou mesmo surrealista, nos alicia a buscar por conexões. Nesse movimento descobrimos um discurso poderoso e violento.

 

O interessante é que, ao tentar realizar uma obra que fale de todos os tempos e da condição humana em geral, Roger Ballen fez uma obra que fala do nosso tempo e de uma condição específica desse mesmo tempo. Por esse motivo, e é o caso da maior parte das grandes obras de arte, é que seu trabalho pode ser lido de forma atemporal e universal. Essa dialética, entre o projeto do artista e sua recepção em diferentes contextos, é o que há de mais interessante na experiência em percorrer seu caminho. Ficamos diante de um paradoxo da relação entre imagem e olhar, tema elaborado por Georges Didi-Huberman em seu livro “O que vemos, o que nos olha”. Segundo o autor é viva a imagem que “ao nos olhar, obriga-nos a olhá-la verdadeiramente”. A exposição “Roger Ballen: transfigurações, fotografias 1968-2012” pode ser vista no Museu de Arte Contemporânea (MAC) – Ibirapuera até dia 27 de Setembro de terça a domingo.

 

¹ www.rogerballen.com/articles/a-conversation-with-roger-ballen/

² Idem.

³ Idem.


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