Salt – e as lágrimas que transbordam de meus olhos

Ainda não sei se conseguirei chegar ao fim deste post.

Salt foi uma das coisas mais lindas que já vi em cena. Após o final do espetáculo a única coisa que fui capaz de fazer foi chorar e chorar e chorar. Saí da Black Room em silêncio, sem nem olhar para meus companheiros brasileiros, subi para meu quarto e chorei, copiosamente.

A beleza e a simplicidade invadiram o teatro e a integridade de uma atriz me embalou em uma história sobre o amor….

Roberta começou o processo de trabalho a partir de uma palavra, que por sinal tem um sentido especial para nós brasileiros: SAUDADE.

Ao longo da criação muitos foram os materiais, mas além do seu intenso treinamento, as músicas compostas por Jan Ferslev e imagens foram a base para a criação de propostas cênicas.

Em cena, o que vemos é uma mulher que recorda de seu grande amor e como as italianas de há anos atrás, guarda suas lágrimas em pequenos vidrinhos. Quando a água evapora, resta o sal. E sal é a matéria que rege a simplicidade das imagens que surgem diante de nossos olhos.

De verdade, é difícil falar sobre. Quando a arte acontece ela nos rouba as palavras…

continua…

Sobre a quase insana tarefa de postar… e … aqui tbm temos abertura de sala

Queridos,

como vocês perceberam não tenho dado conta de escrever todas as noites. A rotina é exaustiva e muitas horas em várias línguas fundem o cérebro. Além disso, a brasileirada organizou um papo diário pra falar do dia. Na verdade o papo aconteceu espontâneamente, mas tbm já se integrou à rotina e com isso, não são poucos os que querem estar perto da “brazilian party” como eles nomearam por aqui. Isso só porque nossos comentários vem sempre acompanhados de muito riso e de uma gestualidade expansiva.

Fato é que, a loucura está tanta que quando chega a noite, depois da brazilian party que vai até as 23h30, não há espaço nem cérebro pra nada. Ontem então, depois do espetáculo da noite tivemos um ensaio.

Pois é, aqui também temos abertura de sala. Segunda-feira está programada a atividade Faces of the Barter (a festa do Odin) em que os participantes da Odin Week mostram sua cara à comunidade local. Em nosso caso recebermos moradores de um grupo de idosos de Holstebro. Kai Bredholt é quem organiza a festa e junta nossas cenas com cantos, formando uma grande miscelânea intercultural.

Além disso, o compositor do Odin em sua Odin Tradition, nos revelou seu processo de composição musical e sua história com a òpera. Resultado: estamos ensaiando uma história de sereias, com direito a musical chorus and árias. Pessoalmente revelo mais detalhes.

Mas não desisti de escrever não. Amanhã temos um tempo dedicado à reflexão e prometo correr pra postar o máximo de coisas antes do sino tocar. Há uma série de citações e práticas que quero partilhar.

A coisa está intensa por aqui e as experiências enlouquecedoramente interessantes, apetitosas e tbm controversas!

Até já!

Augusto Omulú e o primeiro training

7hs da manhã. O sino já havia tocado. Na Red Room, ritmos percussivos aquecem o espaço e um negro extremamente simpático nos recebe com seu sotaque arrastadamente baiano.

Como quem saúda o sol, começamos nosso aquecimento de pernas e braços e sem perceber estamos dançando. O ritmo é contagiante, a energia tbm, sorrisos em todos os rostos a despeito de abdominais e alongamentos impiedosos.

Depois de uma longa sequência que investe pesado nas articulações, nossos corpos estão transpirando alegria. Choque de cerotonina.

Formam-se então as diagonais e o ritmo se intensifica, longas sequências de passos, giros e saltos, além de uma pedra preciosa:

Os pés tem que pensar. Deixem seus pés pensarem. São eles a grande conexão com a terra e por isso tem que estar vivos!” – Augusto Omúlu

Encontros com Eugenio Barba e reflexões acerca de arte, política e recepção teatral

Após o primeiro encontro, nos reunimos a Eugenio todos os outros dias, sempre ao final de um ciclo de trabalhos práticos, num momento que antecede o jantar e a performance da noite.

Nesses encontros, Eugenio nos contou histórias, revelou seus processos de trabalho e nos convidou apreciar os espetáculos que havíamos assistido.

Logo após o primeiro dia e a primeira apresentação, o tema do encontro foi “A vida crônica” e para além dos comentários essenciais do diretor, mergulhei em uma intensa reflexão sobre o fato de estarmos ali, espectadores e criadores, reunidos para discutir uma obra.

Na noite anterior muitas coisas haviam me tocado, como outras nem tanto e outras ainda me desagradado, mas a pergunta inicial de Eugenio é que pra mim foi fundamental: “O que o espetáculo te disse?”. Não lhe interessava saber qual era a história da peça ou se havíamos gostado desse ou daquele aspecto. A ele não importava que discutíssemos sobre o desempenho deste ou daquele ator. Naquele momento, diante dos espectadores, lhe inquietava saber se o espetáculo havia provocado algum nível de deslocamento. Se, em alguma medida, as pessoas se sentiram movidas por alguma questão que elas houvessem apreendido da apresentação. É claro que Eugenio estava ciente do contexto em que estávamos: profissionais de teatro interessados nos processos criativos deste coletivo; ainda assim, sua provocação me levou a pensar sobre como a mediação pode ser essencial para que o ato artístico se concretize. Coletivamente, ouvimos diferentes pontos de vista acerca do que teria despertado inquietações em cena e aos poucos, sem lançar mão sobre as formas como o grupo construiu a peça, as estávamos discutindo.

Forma e conteúdo ganharam organicidade em suas relações simplesmente por estarem atreladas a uma prática que se pretende sim ser perguntadora, questionadora e que, portanto, não abre mão de ter um lastro depois que a cortina fecha,

Nos dias seguintes Barba nos mostrou vídeos sobre o treinamento e nos falou bastante da tradição. Mais uma vez é impressionante o respeito desse homem aos grandes mestres do teatro e como, sua história de imigrante renegado em uma escola é definidora de um trajeto de investigação, pesquisa e invenção dos próprios procedimentos de aprendizagem e criação teatral.

Além de contar histórias sobre as contra-revoluções provocadas pelos mestres, Barba sublinhou a necessidade de um trabalho atoral autônomo, não no sentido das decisões do que estará em cena. Mas sim, no processo de treinamento e levantamento de materiais para que a cena se construa.

E ainda de brinde pudemos ver Helene Weigel em “A mãe coragem”, dirigida por Brecht, outro prisioneiro do exílio como o próprio Barba. Ambos artistas que buscaram em suas práticas criar soluções possíveis e artísticas para não se alinhar às injustiças da realidade.

Julia Varley e a voz desconcertante

Mais uma vez a White Room. Julia nos espera com um rosto impassível. O tom é de solenidade, que se mantém do começo ao fim. The Echo of the silence – work demonstration.

Julia começa falando de seu trabalho no Odin, de como o treinamento físico tem a função de investigação pessoal, mas tbm de levantamento de material criativo. Trata um pouco das ações físicas, mas logo seu foco recai sobre sua maior dificuldade.

Por razões que não me ficaram tão claras, Julia teve sérios problemas vocais. Sua voz cotidiana, de fato, transmite insegurança e a sensação de que não alcança volume algum. Em função desta percepção, ao criar seu treinamento individual, Julia se voltou intensamente para seu trabalho vocal e então, começou o espanto:

Inicialmente apresentando possibilidades de dizer o texto, Julia explorou a música, (sobretudo uma musicalidade de mantras) como estrutura. Ou seja, a partir da melodia o texto se desenhava e nessa investigação podia se revelar a base ou camuflá-la até que se perdesse de vista.

Mais aos poucos, além da melodia como estrutura, Julia começou a explorar as formas de emissão: O mesmo texto dito a partir de uma melodia poderia ser dito como um latido de um animal, ou como um miado ou mugido. No entanto, a imitação do animal era a base da construção vocal e só então o texto era experimentado. Nesse refinado trabalho de escuta, a imitação se apresentava não como um recurso fácil, mas como um requintado exercício de apropriação e recriação de materiais.

Dos animais Julia partiu para o gromelô, depois para diferentes etnias ou para a criação de vozes a partir da observação de lugares, inclusive, explorando harmônicos que não são comuns ao mundo ocidental. Sua potência vocal foi constrangedora. Senti sua voz vibrar em minha coluna e todo o espaço era ocupado. De fato, o silêncio ainda ecoava as ondas sonoras de suas voz, como se reverberassem pela madeira do chão.

Tão impressionante quanto, era a tranquilidade com que ela voltava à sua atitude de conferencista, solene, como se nada tivesse acontecido. O controle sobre o aparelho vocal revela um incansável estudo e treinamento da atriz.

Mas sua demonstração não pára na virtuose da imitação. A emissão do texto é uma ação vocal e, portanto, pode ter os mesmos princípios que regem as ações físicas. E foi isso que vimos. Assim como uma ação física esta recheada de detalhes, a ação vocal neles se inspira para criar a sua dança.

Minha voz deve dançar no meu corpo”.

Desse modo, se em determinado momento do texto minha ação é crescente e pesada, eu posso explorar essas qualidades em minha voz. Não se trata de ilustrar a ação com a voz, muito pelo contrário, pois, partindo dos princípios constitutivos da ação física, a ação vocal ganha qualidade teatral, assumindo formas que dizem respeito às escolhas daquele ator. Escolhas essas que podem ser pela oposição: enquanto minha ação física é crescente, minha ação vocal é decrescente, por exemplo.

Por fim, Julia relaciona essa investigação da própria voz e da emissão de um texto ao processo de montagem de um espetáculo. Em sua fala revela: há o texto, o subtexto, o pretexto e o contexto. O subtexto é responsabilidade da ação física, que a ação vocal se encarregue dos outros!

Iben Nagel Rasmussen – o peso e o equilíbrio

Este foi o primeiro encontro de Odin Tradition. Logo após o sino tocar Iben já estava na sala com dois assistentes, em suas palavras a explicação de que seu corpo já não é mais o mesmo, por isso, alguns exercícios devem ser demonstrados pelos jovens.

E não apenas demonstrados pois, este já foi nosso primeiro contato com as práticas do Odin Teatret.

Não vou descrever cada um dos procedimentos mas sintetizar alguns elementos: PESO e DESEQUILÍBRIO. Esta foi a base do treinamento de hoje, experimentar a criação de uma sequência de ações partindo dessa base e aos poucos, investigar as possibilidades de ampliação e redução do volume da ação, sem com isso reduzir a energia.

É gostoso perceber que, de fato, alguns elementos transcendem as culturas. Essas experimentações não eram novidade para nenhum de nós, mas encantavam pela clareza e intensidade com que Iben apresentava cada etapa dos exercícios. E mais, em suas instruções era clara a criação de uma metodologia de pesquisa e descoberta de elementos que possam ser constituintes da cena. E sem dúvida, a ação física ocupa papel central.

O peso e o desequilíbrio nos colocam num estado de atenção e urgência que mobiliza todo o corpo a responder imediatamente com um desenho corporal que ocupa o espaço e cria novas relações entre o eixo e a periferia do corpo. Além disso, a estrutura física nessas bases nos coloca necessariamente consciente das posições em que nos encontramos, com nossos apoios, amortecedores e pontos de tensão. Criar a ação a partir daqui gera tensão justa, limpeza e clareza no movimento e sequências não ilustrativas. Além é claro, da cumplicidade e jogo entre os parceiros de cena. E para a criação é que caminhamos.

No momento da partilha das sequências de ações, Iben notou que alguns de nós não nos contentávamos em ficar com a ação, mas arriscávamos um colorido… interpretações. Foi então que pediu aos assistentes que realizassem uma sequência clássica de Dario Fo, com entradas e circulação em cena. Mas antes que o fizessem e sem que eles soubessem, nos contou duas diferentes situações. Nenhum dos dois soube, mas para nós espectadores, a mesma sequência de ações ganhou diferentes significados:

O texto é que deve dizer o que é a sua ação e não a sua interpretação, fique na ação e deixe o público criar junto com você e todos os outros elementos”. Iben